domingo, 5 de abril de 2009

E se eu sentir seu coração e ele estiver parado? É porque eu morri. Morreu sem se despedir de mim? Estou me despedindo agora...

Era uma vez um homem que de vez em quando escrevia de uma vez só sobre todas as vezes em que sentiu vontade de falar de uma vez por todas sobre coisas que vez por outra ele quase fala em vez de escrever.
Ela ainda não sabe sobre o que vai escrever hoje, por isso espia as palavras dele. Quer copiar-lhe os sentidos, mas de nada adianta se ele carrega na bagagem apenas amores de ocasião. Ele dedilha as cordas e inventa uma história pra ela, mas ela não dá bola porque não quer inventar o que já existe. Você me beijaria agora? Beijaria, se você não tivesse pedido. Eu não teria pedido, mas você não é um amor de ocasião. Ela percebe. E começa a escrever.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Quando ele percebeu que, quando ela sorria, ele nunca estava por perto, foi embora porque não queria que, quando contasse que iria embora, ela sorrisse.

Contava os modos diferentes dele de respirar, mesmo dormindo. Ele contava pra ela que, enquanto dormia, ela contava os modos diferentes dele de respirar em seus sonhos. Sonhou que contava os modos diferentes dele sonhar, mesmo acordado. Ele contava pra ela que, enquanto sonhava, ela estava deitada ao seu lado dormindo e sonhando que ele sonhava com ela. Eles acordavam ao mesmo tempo e ficavam olhando os sonhos um do outros de olhos abertos enquanto dormiam de modos diferentes e respiravam juntos.

Estavam juntos há tanto tempo que ele perdeu a conta de quantas vezes já se apaixonou por ela todos os dias.
Ela enxergava aquela boca beijando-lhe a nuca e não entendia como uma imagem que ela apenas sentira poderia aparecer tão nítida diante de seus olhos fechados. Lembrou-se de que quis tanto que ele respirasse tão de perto que quando aconteceu ela pôde decorar todos os movimentos que imaginava que ele faria, porque havia mais cumplicidade que surpresa e ela não precisava mais adivinhar uma seqüência de dezesseis fotos em preto e branco nem mesmo ensaiar resposta alguma. Se ele agisse tal como em seus sonhos, ela só teria que passar as pontas dos dedos no contorno do rosto dele, para ter certeza de que se acordasse ele ainda estaria ali e não haveria sobre a mesa um rolo de um filme qualquer cujo roteiro ela conhecia e odiava. Lembrou-se disso e de que a penugem quase invisível de seu pescoço já sabia até mesmo para que lado devia pender.