segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Entendia de letras mortas e sabia passar palavras de amor diante dos meus olhos bem devagar, pra doer por mais tempo. Nunca chorei. Lembrava das segundas de frases feitas, das terças de portas fechadas, e do café frio engolido, esse, todos os dias, só pra sabê-lo por perto. Rasgava minha carne com pequenos espinhos. Um dia tocou as pontas dos meus cabelos. Um dia beijou minha boca. Um dia minha alma foi sua. Nunca chorei.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A Colombina chegou pulando, tão cheia de encantos mil, caiu nas graças do Pierrot, que estava bebendo até se afogar. Só dava ela, com um punhado de confetes, rindo das graças do pirata, bebendo do copo do tirolês, jogando charme no bolso do Pierrot. Pelo amor da Colombina, o Pierrot apaixonado apertou junto ao peito o festim de confetes, tal qual restos de um baile de carnaval. Bebeu o meio cheio da garrafa meio vazia que não haveria de sobrar, e saiu procurando com o que tatuaria sua alma na mão direita de quem já tinha seu coração apertado na esquerda. Girava pelo deserto do Saara, tocando sambas de abre-alas só de passagem; queria sangue, pena, caneta, cerveja ou suor de jardineira, para escrever uma marchinha na palma da mão da Colombina. Seu mundo era todo dela, veja só que bom que era Colombina mais bonita que a camélia que morreu. Sugava lenços embebidos em euforia, matava sede com cachaça, qual fosse água e cantava versos em homenagem à morena bossa nova, fazendo coro com a turma do funil. Sorvia o líquido amargo e gelado que era amarelo como a flor, rosa de ouro, que colocaria nos cabelos da Colombina. O dia já vinha raiando, o Pierrot não tinha tinta, mas já marchava poemas na ponta da língua, para escrever com sua saliva no céu da boca da fina flor dos foliões. Nem percebeu que enquanto rodopiava, ia atirando todo o confete debaixo dos pés dos mil palhaços no salão, vestidos em purpurinas e cascas de banana nanica. E foi o fim de seu amor pela Colombina, que passou o baile todo no balancê, balancê, fazendo só o que seu o coração mandava com o Arlequim e agora enrolava sua serpentina na língua do Zorro atrás da cortina, enquanto a banda entoava versos sobre a sinceridade de Aurora.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Dentro do livro havia um bilhete amassado que eu escrevi de quando estava mau humor. Eu li o bilhete. Estava em branco. Eu escrevo coisas lindas quando estou de mau humor.
Comprei um presente de aniversário que embrulhei com o mapa de estradas do Estado de São Paulo e deixei em sua porta. Um dia você me convidou para um café e o presente, ainda embrulhado, estava enfeitando a mesinha de centro.
Ele não presta atenção quando falo das coisas sérias. Ele só olha para minha boca e não percebe que eu não estou rindo. Ele tira minha concentração e eu esqueço o que ia dizer.
Então ele olha nos meus olhos.
Hoje quis fechar as portas da varanda porque o sol deixou meus olhos quentes antes da hora e eu ainda queria sonhar com um punhado de areia em minha mãos por mais alguns minutos. Eu gosto desses dias de dormir em diagonal com a luz do mundo apagada, mas para isso as portas da varanda deveriam estar fechadas. Agora é tarde, porque não há mais areia e meus olhos já estão queimando.
Havia tanta água. Ela escorria, fazia cócegas em meu rosto e borrava as letras das palavras dos poemas que eu ainda não havia decorado. Então eu fiquei em silêncio tentando lembrar o refrão de uma música que sempre me deixava feliz. Ele falou baixo e bem de perto, como que num confessionário. Eu nunca prometi nada. Ainda havia água e eu comecei a cantar em silêncio uma música que nunca me deixava feliz e olhei de verdade nos olhos dele. Acho que ele adivinhou qual era a música que eu cantava, porque fechou os olhos para não ouvir quando eu contei com os lábios cerrados que o que eu queria nunca poderia ser prometido.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Decidi acabar com tudo assim que a vela apagasse.
Poria fim ao jornal debaixo do braço, às pantufas irritantes, à alergia da bituca, ao baralho sem os ases.
Procurei pelo assento de couro afundado pelo uso, pela caixa de ferramentas enferrujada, pela mordida no pescoço, pelo pouco caso do jantar a luz de velas.
Procurei a mão enorme, seus calos, todos eles. E os beliscões.
A saliva, a umidade, a respiração.
O jogo de ludo, a calçadeira, a mania de espiar e a falta d’água nas samambaias.
A cicatriz, o jeito de puxar meu corpo pra junto de madrugada, o Fluminense, os ovos de gemas moles e o mapa mundi.
Procurei os pés se esfregando, tentei esfregar os meus.
O hálito de vinho tinto, o hálito de marido, o hálito de mulher.
Poria fora o colo, os braços, a indiferença, a solidão, as fotos em branco e preto e o livro da maçonaria.
Procurei por dentro, por fora também.
Gritava.
Creio não ter chorado. Não sei ao certo, não podia ver direito, estava tudo embaçado.
Nada.
Encontrei somente o par de chaves extras. Não eram as minhas, com certeza.
Soprei.
Por um momento, sensações de vida inteira. Saber-se provando de minutos doces da rotina que salva. O mesmo contorno, o mesmo côncavo, todos os dias daquele minuto, por um momento de amor de mentira, por um momento, queria a rotina. De olhos fechados a mão parecia a de uma eternidade, esperando pra cravar as unhas na sorte de saber que o dia seguinte seria igual, porém chuvoso, igual, porém gelado, igual, porém comprido. Ou seria apenas mais um dia da rotina de bocas com gosto de café e amor por cima de jornal de domingo.
O gosto era salgado, masculino, na boca, eu lambia, era bom, era sal. Era quase o gosto que eu amava, quase os mesmos ossos largos, a juntas e os calos, quase os mesmos gestos brutos, quase o mesmo caos. A pele era curtida pelo mesmo sol, e o atrito quase mastigava meus sentidos da mesma forma profana, com a mesma sandice, e com tal loucura que eu poderia jurar que era a mesma loucura. Cerrava os olhos, mirava a sombra e quase enganada, dissimulava os gemidos, os giros de língua, o lugar do quadril. Quase fingia a umidade, mas ela estava lá, fluida e macia, por entre os dedos e os músculos e os pelos. Pensava que poderia viver assim, que o contorno quase poderia ser abrigo, que a carne serviria à mesma lascívia, ao repouso, ao escuro, ao silêncio, aos suspiros e que quase seria o mesmo gosto, quase seria o mesmo sal.
Passava meus dedos sobre os traços que definem você e fingia não saber tão bem de cada contorno e de cada fim e de cada poro. Fazia pouco das palavras e da umidade por entre as juntas e espaços macios e quentes, por entre as almas, todas elas, minhas e suas. Queria que soubesse da indiferença, fabricada, criada, moldada à perfeição de tudo que precisasse ser escondido, ainda que o jeito de arquear o corpo, e de pedir olhando, e de olhar pedindo, e o mover lento e açucarado, cruel, fossem a denuncia e a confissão, fossem o fim da fina máscara e ferissem demais. Talvez se acreditasse não estar ali doeria menos, e nada devesse ser explicado, frio, congelado, e as gotas estariam seguras, fechadas, dentro dos olhos. E eu, eu não teria que apertar os lábios, e as pálpebras e as mãos, com força, largada num colo que sei que nunca, nunca, será meu.
Sobre a falta de vergonha na cara. Era o tema da revolta, era o mote do choro. Que desperdício de tempo. Que sandice acreditar que a casca esconde o que há de bom. A casca é inimiga da lucidez, é ela que me fez passar batom. Ah, eu sonhava. Dói admitir que soprei todos eles para longe. Desintegrados. Grande novidade, alimento dos tolos. A tola fui eu. A credulidade ria da felicidade da menina, cochichando impressões no ouvido do passado. Impressões, todas boas. De olho, de boca, de mãos. Todas boas, todas falsas. Mentiras.
Odeio ares gelados, a falta de eco e o não saber se há o fim ou se o espaço de tempo entre a última vez e a próxima delas de fato existe. Quando germinavam as idéias provocadas por sabê-lo do outro lado do espelho, eu sequer pensava que o dia seguinte refletiria o contorno do meu rosto na tela branca cheia de reflexos deformados, e que aquilo não faria sentido. Queria saber da voz, queria que declamasse as palavras ainda não imaginadas e que eu sequer mereceria ouvir de alguém que não sente nada que valha a pena. Pouca importância tinha a imagem idolatrada, se não havia a minha volta os braços largados em mim e o beijo da proximidade, se não havia nada senão o cinismo, e a sensação de dever cumprido. Queria fugir dali e voltar ao ponto de partida, não saber do gosto da pele, do álcool processado em alguns minutos de euforia e outros tantos, muitos até, de decepção. Queria não me importar, queria os ares gelados e a falta de eco. Queria estar antes de saber como é o agora.
Quando meu encanto se estilhaça e me torno do nada, o nada, prefiro a paz de esquecer que um dia a falta de sentido foi partícula e molécula e que minha alma deixou de ser todo porque parte dela eu entreguei sem pensar. Mas eu não lamento porque escrevo, porque sonho e porque todos os dias algo morre e algo nasce e o que faz sentido já não mais faz sentido algum.
Quase amei o contorno, o sono atrevido, a respiração. Pensava nos olhos pequenos, e rezava os versos da minha verdade e do abandono daquele contorno e do sono atrevido. A respiração, mal se ouvia, mas era ardida, mas entrava, rasgava, doía. Eu suava, e era água de chuva, era estampa da alma, era nada, era eu, sozinha, procurando sombras num quarto sem luz. Nada doce. Nada. Ouvia a água caindo no chão. Ouvia meu eco, seco, refrão solo, eu. O cinismo lambendo o dia seguinte, e eu, fingidora, olhando a tatuagem de rosa no espelho, exalando a tristeza, o disfarce, e não sei mais o quê. Sem saber de mim mesma, ouvir de mim mesma. Pouco caso dos versos da minha verdade. Tola. Fingidora. Mascarada. Contorno atrevido, da alma, do ar. De mim. Fim.
Quando via a sombra da porta era falta de resposta ou de coragem?
Deserção era o que vinha depois de virar mais uma vez a ampulheta.
Contas em ábacos.
Escreve cartas infames a jornais de segunda, reclamando da falta de castanha portuguesa em maio e de ter que trabalhar usando botas de segurança.
Quer descer as escadas usando meias e segurando uma tocha.
Quer olhar pelo buraco da fechadura e ver seus dedos perdidos nos cabelos.
Ela invade.
Há neblina e o farol é vermelho.
Vai, cobre-a.
Cansada de esperar pela invasão hostil.
Chega.