segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Quando ele percebeu que, quando ela sorria, ele nunca estava por perto, foi embora porque não queria que, quando contasse que iria embora, ela sorrisse.

Contava os modos diferentes dele de respirar, mesmo dormindo. Ele contava pra ela que, enquanto dormia, ela contava os modos diferentes dele de respirar em seus sonhos. Sonhou que contava os modos diferentes dele sonhar, mesmo acordado. Ele contava pra ela que, enquanto sonhava, ela estava deitada ao seu lado dormindo e sonhando que ele sonhava com ela. Eles acordavam ao mesmo tempo e ficavam olhando os sonhos um do outros de olhos abertos enquanto dormiam de modos diferentes e respiravam juntos.

Estavam juntos há tanto tempo que ele perdeu a conta de quantas vezes já se apaixonou por ela todos os dias.
Ela enxergava aquela boca beijando-lhe a nuca e não entendia como uma imagem que ela apenas sentira poderia aparecer tão nítida diante de seus olhos fechados. Lembrou-se de que quis tanto que ele respirasse tão de perto que quando aconteceu ela pôde decorar todos os movimentos que imaginava que ele faria, porque havia mais cumplicidade que surpresa e ela não precisava mais adivinhar uma seqüência de dezesseis fotos em preto e branco nem mesmo ensaiar resposta alguma. Se ele agisse tal como em seus sonhos, ela só teria que passar as pontas dos dedos no contorno do rosto dele, para ter certeza de que se acordasse ele ainda estaria ali e não haveria sobre a mesa um rolo de um filme qualquer cujo roteiro ela conhecia e odiava. Lembrou-se disso e de que a penugem quase invisível de seu pescoço já sabia até mesmo para que lado devia pender.
O que eu menos gostava era do cinza, quando se sobrepunha. Gostava mais do azul, mesmo quando minhas mãos tinham que ficar juntas e pareciam mais finas, doendo para se mover. Se o ar estivesse quente, tanto melhor, mas não fazia diferença. Da chuva, eu gostava do cheiro. Mas não dela sozinha, do cheiro dela na terra, molhada. Um dia eu chovi de dentro para fora e pensei que talvez dentro de mim fosse azul e depois disso houvesse terra molhada e cheiro de chuva que eu gosto tanto. Mas não dela sozinha, do cheiro dela na terra, molhada. Da chuva, eu gostava do cheiro. Se o ar estivesse quente, tanto melhor, mas não fazia diferença. Gostava mais do azul, mesmo quando minhas mãos tinham que ficar juntas e pareciam mais finas, doendo para se mover. O que eu menos gostava era do cinza, quando se sobrepunha.
Tem um jeito indecente de falar coisas bonitas. Sussurra em silêncio quando revira os olhos e eu sorrio porque sei que ele gosta de saber que eu gosto. Tem um jeito bonito de fazer coisas indecentes. Olha com alarde quando pede e eu sorrio porque gosto de saber que ele gosta. Sussurra coisas indecentes em silêncio quando faz do jeito eu gosto e sorri quando diz que eu sou bonita querendo dizer que nunca vai gostar de mim. Quando eu vou embora, ele fecha os olhos e dorme e eu abro os olhos e sonho.
Experimentou pela primeira vez a necessidade de ficar em silêncio quando tudo o que mais queria era contar tudo, porque, se falasse, aquele minuto de contemplação acabaria, e se ficasse em silêncio, só olhando para ele, o minuto duraria para sempre e talvez nada precisasse ser dito.
Ontem ouvi meu próprio coração e ele cantava a mesma música que você.
Eu escolhi que hoje vai ser sempre o dia mais feliz da minha vida.
Mordida na boca e olhos fechados. Devagar. Rápido. Devagar. A mão escorrega. Rápido. Rápido. Rápido. Tudo escorrega. Lábios úmidos. Devagar. Mais devagar. Rápido que eu estou sem pressa. Sussurra molhado. Olha pra mim. Devagar. A palma da mão sobre a palma da mão. Rápido. Devagar. Rápido. Devagar que eu estou sem pressa. Manda que eu fique em silêncio porque quer que eu grite mais alto. Rápido. Desliza. Rápido. Alisa. Rápido. Invade. Boca mordida. Olhos nos olhos. Onde você for, eu vou. Ensina. Devagar, quase rápido. Não olha assim que eu estou com pressa. Devagar. Mais devagar. Muito rápido. Você já vai? Vamos juntos.